Pirâmide Às Avessas

Pirâmide Às Avessas

De onde surgiu aquela pirâmide alimentar que nos adoeceu em vez de melhorar a nossa saúde? Os nutricionistas estavam todos errados? Não estavam completamente errados, mas quando a política quer dar palpite em tudo e o dinheiro e os interesses das grandes corporações valem mais do que a saúde dos indivíduos, desastres acontecem. 

Para entender por que as pessoas vêm se alimentando tão mal nos últimos 50 anos e, consequentemente, ficando cada vez mais obesas, doentes e cansadas, vamos viajar no tempo e conhecer a história da pirâmide alimentar, e descobrir como uma diretriz que deveria guiar as pessoas em direção à saúde fez exatamente o contrário.

A primeira diretriz alimentar foi publicada em 1894 pelo Dr. Wilbur Olin Atwater, no boletim dos fazendeiros. A atualização de 1904 tinha o título “Princípios de Nutrição e Valor Nutritivo dos Alimentos”. Defendia variedade, proporcionalidade e moderação, medição de calorias e uma dieta eficiente e acessível concentrada em alimentos ricos em nutrientes e com menos gordura, açúcar e amido. Isso foi antes da descoberta das vitaminas, em 1912.

Em 1916, a nutricionista Caroline Hunt publicou “Alimentos para crianças pequenas”, o qual continha cinco grupos: leite e carnes, cereais, legumes e frutas, gorduras e alimentos gordurosos e açúcares e alimentos açucarados. Esse mesmo guia foi publicado, agora para adultos, em “Como selecionar alimentos”, de 1917, e essas diretrizes continuaram nos anos 20. Em 1933, o Departamento de Agricultura americano introduziu planos alimentares baseados em quatro níveis de custo diferentes, em resposta à grande depressão econômica da época.

Em 1941, o presidente Franklin Roosevelt convocou a “Conferência Nacional em Defesa da Nutrição” da qual surgiram as primeiras recomendações dietéticas, listando doses específicas de calorias, proteínas, ferro, cálcio e vitaminas A, B1, B2 B3, C e D.

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A partir desse documento, originou-se o infográfico de 1943 chamado “Os Sete Básicos”, desenvolvido pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) durante a Segunda Guerra Mundial. Havia racionamento de alimentos e o objetivo era ajudar as famílias a se alimentarem melhor.

Os grupos eram: 

  • Vegetais verdes e amarelos (crus, cozidos, congelados ou enlatados);    
  • Laranjas, tomates, repolho e salada verde;
  • Batatas e outros legumes e frutas (crus, secos, cozidos, congelados ou enlatados);
  • Leite e produtos lácteos (líquido, evaporado, em pó e queijo);                  
  • Carnes, aves, peixes e ovos (e feijões secos, ervilhas, nozes ou manteiga de amendoim);                                          
  • Pão, farinha e cereais (grãos inteiros naturais, ou enriquecidos ou restaurados);                                                                             
  • Manteiga e margarina fortificada (com adição de vitamina A).

           
Os cidadãos deveriam comer pelo menos um alimento de cada categoria a cada dia, o que não era fácil na época, por causa do racionamento.

Em 1954, um vídeo educativo foi lançado pela Enciclopédia Britânica, a fim de ensinar os cinco grupos (cada órgão dividia os alimentos como bem queria) às crianças da época. Foi usada a palma da mão, e cada dedo representava um grupo: Frutas, legumes e verduras, carnes e ovos, leite e queijo, pão e manteiga. Não era ideal, por conter margarina (fortificada) e pão branco (fortificado), mas também aconselhava a comer diariamente carnes, ovos, manteiga e cereais integrais. Não menciona açúcar, cereais ou massas. Sobremesa: frutas e nozes.

Resumindo o vídeo, que está em inglês: começa mostrando um menino telefonando aos pais, pedindo para jantar na casa dos amiguinhos. Pois é importante e divertido comer em família e entre amigos. O casal, os dois filhos e o menino, Ralph, estão jantando, todos estão felizes, mas Ralph não está com fome, talvez por ter comido um doce antes do jantar. Uma das crianças lembra que eles aprenderam na escola sobre os cinco grupos alimentares. No dia seguinte, os amigos querem brincar e Ralph está cansado. O menino lembra dos grupos alimentares e pensa que talvez aquilo esteja certo. E lembra que os colegas que se alimentam de acordo com “a mão” parecem alegres, fortes e saudáveis. Ralph decide comer alimentos dos cinco grupos todos os dias, e dois meses depois ele tem mais energia e está mais feliz.


Leite, carnes, frutas e vegetais e grãos.

Esse guia oficial, de 1956, foi seguido por mais de 30 anos.

Bons tempos aqueles, em que as redes de fast-food ainda não haviam dominado o planeta. Enfim, o USDA nunca utilizou essas recomendações em suas diretrizes, mas o vídeo ajudou o governo a simplificar os complicados sete grupos e consolidá-los em “Os Quatro Básicos”.

Mais tarde, em 1972, em meio aos elevados preços dos alimentos na Europa, o Conselho Nacional de Saúde e Bem-estar da Suécia desenvolveu a ideia de “alimentos básicos ” que eram baratos e nutritivos, e “alimentos suplementares ” que acrescentavam a nutrição que faltava aos alimentos básicos. Anna-Britt Agnsäter, que trabalhava para uma cooperativa sueca de varejo, a Kooperativa Förbundet, mostrou em uma palestra como ilustrar esses grupos de alimentos. Um participante, Fjalar Clemes, sugeriu um triângulo exibindo os alimentos básicos na base. Agnsäter desenvolveu a ideia da primeira pirâmide alimentar, que foi introduzida ao público em 1974.

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A pirâmide tinha alimentos básicos na base, incluindo leite, queijo, margarina, pão,
cereais e batata; uma grande seção de legumes suplementares e frutas;
e um ápice de carnes suplementares, peixes e ovos.

A pirâmide foi dividida em alimentos básicos na base, incluindo leite, queijo, margarina, pão, cereais e batata; uma grande seção de legumes suplementares e frutas; e um ápice de carnes suplementares, peixes e ovos.

O Círculo Dietético Nacional considerou a pirâmide problemática,  por se assemelhar a um bolo dividido em fatias, e por não indicar o quanto de cada alimento deveria ser consumido. O Círculo se distanciava da pirâmide, mas a KF continuou a promovê-la, e outros países escandinavos, bem como a Alemanha Ocidental, o Japão e o Sri Lanka adotaram o modelo.

Depois de seguir “Os Quatro Básicos” de 1956 a 1992, finalmente os  Estados Unidos criaram a sua pirâmide alimentar, em  1992.

Senador George McGovern

Mas a história da primeira pirâmide americana começou bem antes, em 1977.  O senador George McGovern havia assistido a um documentário sobre a fome na América do Norte.  Ele ficou impressionado e decidiu que ia acabar com o problema, não haveria mais crianças famintas nos EUA. Nesse processo, ele conheceu um inventor e nutricionista chamado Nathan Pritikin, que na época estava em uma cruzada contra a gordura,  ele achava que todos os problemas de saúde seriam resolvidos com uma dieta de baixo teor de gordura e de sal e com muitos exercícios diários. O senador começou a seguir o guru, e logo se esqueceu das criancinhas famintas, propagando que deveríamos comer menos, e não mais. 

McGovern criou um comitê no Senado, o qual escreveu um documento de setenta e duas páginas, chamado “Objetivos dietéticos para os Estados Unidos”. Depois de vários anos de politicagens, interesses econômicos e acordos com grandes empresas alimentícias, especialmente na área de cereais e de alimentos processados, em 1980 foi publicado outro documento, mais oficial, o “Diretrizes Dietéticas para os Americanos”, que é atualizado a cada cinco anos, até hoje. Depois de muita controvérsia e revisões, finalmente em 1992 foi publicada a pirâmide alimentar que conhecemos.

No início dos anos 80, a nutricionista e cientista Luise Light foi recrutada pelo Departamento de Agricultura dos EUA para criar um guia alimentar para substituir “Os Quatro Básicos”. O objetivo da nutricionista e sua equipe era o de criar recomendações para ajudar a erradicar as doenças crônicas que assolavam a América do Norte. Essa pirâmide tinha como base frutas, e vegetais, limitadas quantidades de amidos, algumas carnes, leite e pão. 

A pirâmide foi enviada ao congresso para ser aprovada. E foi quase completamente modificada.

Luise Light escreveu um artigo em 2004 expondo a sua revolta quanto às mudanças feitas na sua pirâmide alimentar original. Você pode ler o artigo aqui. Está em inglês. http://www.whale.to/a/light.html

A pirâmide oficial aprovada aconselhava a população americana a comer, por dia, de seis a onze porções de pão, cereais, arroz e macarrão; de duas a quatro porções de frutas e de três a cinco porções de verduras e legumes; depois vinha o leite  e derivados e carne, frango, peixe, ovos e leguminosas, de duas a três porções por dia. Lá no alto, gorduras, óleos, açúcar e doces.

A intenção, supostamente, era a mesma da pirâmide original, a de ajudar o público a optar por alimentos que manteriam a saúde e diminuiriam o risco de doenças crônicas. Ela recomendava às pessoas que evitassem todos os tipos de gorduras, e que comessem muitos alimentos ricos em carboidratos, como pão, cereais em flocos, arroz e massas. Um dos objetivos era reduzir o consumo total de gordura saturada, que eleva os níveis do colesterol. 

Essa foi a pirâmide alimentar oficial seguida pelos americanos de 1992 a 2005. Nesse período, o número de casos de diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares e autoimunes cresceu muito. O aumento do consumo de farinhas, cereais, e consequentemente, açúcar, foi desastroso. Considerar que todas as gorduras são iguais e que todas fazem mal foi um grande erro.

https://www.huffpostbrasil.com/entry/usda-dietary-guidelines-diabetes_n_5635554

Os EUA e grande parte do planeta seguiram aquelas recomendações. Desde 1992 – em alguns lares muito antes do que isso, por causa do documento de 1980 – e as escolas, os quartéis, todos os órgãos públicos que oferecessem merenda ou almoço foram obrigados a seguirem as diretrizes. A população confiava nessa pirâmide, pois pensava que havia sido elaborada por  nutricionistas.  Mas os políticos assumiram, e através de negociações, decidiram esquematizar um guia que atendesse a todos os interesses, principalmente aos dos latifundiários (produtores de carnes e laticínios), e das grandes corporações de alimentos – a produção de trigo estava em grande alta, devido à modificação por séries de hibridizações forçadas.

Em um próximo post, a parte 2 de Pirâmide às avessas. Falaremos das diretrizes de 2005 e de 2015, e da pirâmide brasileira.

Viva extraordinariamente!

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